A mitologia grega foi utilizada pelos lusófonos de forma expressiva e ampla, sendo aproveitada em campos como a música, a literatura e notavelmente o teatro, refletindo as características de seus mitos com os aspectos sociais condizentes com seu tempo. Em sua magnum opus Os Lusíadas, Luís de Camões modelou sua linguagem adotando a mitologia grega com o intuito de ordenar e enfatizar seu poema.[197] Camões acreditava que poetizar a mitologia era dar "uma unidade de ação e um enredo dinâmico ao seu poema e usufruir do sentido autônomo de beleza que as imagens possuem".[198] Sua obra é vista como uma tentativa de converter os mitos em termos de realidade histórica, servindo-se do estilo clássico para elevar os ideais do Cristianismo.[199] Certos críticos observam que Camões atribui a Vênus características harmoniosas e de organização para representar o espírito do Ocidente, enquanto que Baco é a corporização do espírito do Oriente, com características vaidosas e desorganizadas.[197] Seu estilo é visto como uma espécie sem definições definitivas.[200]
Monteiro Lobato — apaixonado pela influência que a cultura grega sobrepôs na língua portuguesa[202] — explorou a tradição da mitologia grega cumprindo seus projetos ligados a um público infanto-juvenil (dessa forma, a obra de Lobato foi norteada através de sua compreensão de que o mito grego era o alimento do espírito, algo que ele especifica no mito nacional do Saci).[203] Lobato, cuja intertextualidade dá-se por meio de uma linguagem simples (às vezes incluindo definições de vocábulos),[202] retomou temas mitológicos em obras como O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules, adotando uma linguagem infantil em ambas as obras.[201] Suas intenções eram transmitir mensagens sobre família, educação e imaginação, ao mesmo tempo que mostrava "o maravilhoso [do mundo mitológico]" como a "pueril mágica do cotidiano".[201] Antes de Lobato, a intertexualidade já se dava por meio do Padre Antonio Vieira, que escrevia seus sermões em território brasileiro, utilizando muitas vezes as figuras de Narciso, de Midas e das Parcas para referir-se à vaidade, a avareza e a morte, explicando: "Só uma coisa há que não pode passar, porque o que nunca foi, não pode deixar de ser, e tais parece que foram as fábulas que neste mesmo tempo se inventaram e fingiram."[204] Inspirado pelas Metamorfoses de Ovídio, Cruz e Silvaproduziu doze metamorfoses, inteiramente influenciado pelo mito grego.[205]
Na poesia, destacam-se: Prosopoéia, de Bento Teixeira (poeta fascinado por Camões),[165] cuja estrofe XV faz referência à Proteu;[207] Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga no século XVIII, época em que o Arcadismo retomava o costume de citar textos da Grécia clássica,[206] onde Gonzaga diz, "[...] O terno corpo despido/ E de Amor, ou de Cupido…";[208] Vozes D'África, poema do baiano Castro Alves, em que ele citaPrometeu,[209] incluindo hipérboles e comparações ao seu estilo romântico;[206] o poema Helena, de Luiz Delfino, onde há alusões a Helena de Troia, Paros e à Grécia antiga;[210] Augusto dos Anjos, adepto do Simbolismoe com seu pessimismo típico, evoca a figura da Quimera no poema Versos Íntimos,[211] onde há uma espécie de angústia perante o século novo e a ameaça da Primeira Guerra Mundial;[169] o poema do ModernismoBacanal, de Manuel Bandeira, onde Bandeira cita o nascimento do vinho e do teatro, com a figura de Dionísio, além de saudar: "Evoé Baco!",[212] e — finalmente — Carlos Drummond de Andrade com o poema Rapto, onde o evoca a cena bizarra de Ganimedes sendo raptado pelo Deus Júpiter na porta de uma boate carioca.[213][214]
Vinicius de Moraes escreveu Orfeu da Conceição originalmente em 1942, reescreveu seu texto em 1955, e a peça só foi montada em 1956 no Rio de Janeiro.[215] A peça baseia-se no mito de Orfeu, que descia até Hadescom Eurídice cantando docemente para que os mortos deixassem os dois passarem.[216] Aproveitando os dotes musicais que os gregos antigos atribuíam a Orfeu, cantor e instrumentista da lira, Moraes fez de seu Orfeu um condutor de bonde e sambista que mora num morro do Rio de Janeiro.[215] A obra de Vinicius, que é vista como uma tentativa de unir o drama com a poesia lírica,[215] rendeu o álbum musical Orfeu da Conceição com as músicas da peça, uma adaptação ítalo-franco-brasileira famosa e premiada para o cinema intitulada Orfeu Negro, sob a direção de Marcel Camus, e também um de seus grandes sucessos com Tom Jobim: a canção "Se Todos Fossem Iguais a Você".[215][217] Aliás, a peça marcou o início da amizade e da produção artística dos dois,[218][219] sendo esse acontecimento, para Vinicius, o ponto principal dos resultados obtidos por ele em sua composição da obra.[217]
Oduvaldo Viana Filho adaptou para a televisão brasileira o texto de Medéia, do grego Eurípedes, e, a partir dessa produção, Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes recuperaram o mito de Medéia ao escreverem um musical intitulado Gota d'água(1975),[220] retratando o abandono que Joana, a personagem principal, sofre pelo marido, e as consequências trágicas que a levam a assassinar os próprios filhos numa favela do Rio de Janeiro, à semelhança de Medéia, que os assassinou após ser deixada por Jasão.[216] Ambientada numa área urbana do Rio de Janeiro, a tragédia incorporava em seu texto mais de quatro mil versos,[220] e sua primeira encenação teve Bibi Ferreira no papel principal.[220] Gota d'água, de Buarque e Pontes, é vista como um drama que tenta focalizar a realidade brasileira da década de 1970 e sua desigualdade social, a resistência de sua democracia durante sua ditadura militar,[221] e sua política autoritarista,[222] bem como os temas mais universais como a traição, moralidade e o amor (presentes no original grego). José Saramago, em território português, publicou O Homem Duplicado em 2002, revestindo o mito de Anfitrião a umestilo pós-morderno ao narrar as consequências que o personagem Tertuliano vem a sofrer por ter perdido sua individualidade após se envolver com uma cultura alienante e massificadora.[216] Através desse enredo, Saramago propõe uma reflexão sobre política e cidadania e estabelece uma intertextualidade moderna e criativa da mitologia grega.
´POSTADO POR NICOLE
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